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sábado, 6 de agosto de 2011

 "Você desiste?". Era sua segunda pergunta. A primeira havia sido o que ela achava que ele mais gostava no seu corpo. Como ela tentou várias coisas e não descobriu, ele continuou.
 "Os seus peitos." Pausa. "Tanto é que, quando você fez a cirurgia lá, eu fui o primeiro a perceber. E pensei 'uau, ficou show de bola'. Mas não falei nada, é claro." Ele continuou falando que também gostava de uma outra coisa nela - algo que ela nunca havia valorizado em si mesma e que provavelmente nunca notaria se ele não tivesse falado. Foi uma conversa na qual ela se sentira muito reconfortada, por ter certeza da sinceridade das palavras que foram ditas, de que elas não eram um mero consolo. Elogios sinceros. Sinceros. "Você pode ter certeza que, se eu penso isso... eu não devo ser o único. Tem mais gente te vendo e gostando."
 Foi só quando já estava no final do caminho de volta para casa, depois de uma pequena caminhada, um ônibus insuportavelmente lotado no qual ela teve que ceder o seu lugar para uma velhinha, e mais uma caminhada - dessa vez longa - que ela se dera conta da dimensão do que seu amigo havia lhe dito. Então os seus seios eram atraentes - antes da cirurgia. Ela fora o primeiro passo de uma longa caminhada, que parecia destinada a não ter mais fim, que ela achava que teria que começar por ali porque seios grandes eram o mínimo. E não. Ela já era apreciada como era.
 Havia ouvido de todas as pessoas e na mídia hipócrita que haveria quem gostasse dela do jeito que ela era. E em alguns fóruns de discussão na internet lera homens que relatavam gostar de seios pequenos. Mas lhe parecia que por uma minoria ínfima não valia a pena continuar como nascera, era mais importante agradar ao máximo de homens possível para potencializar as suas chances de um dos que se sentissem sexualmente atraídos por ela um dia viessem a desenvolver enfim amor. Ainda não achava que essa idéia estava errada de fato, mas estava convencida de uma coisa.
 Se haviam homens que gostavam de seios pequenos, ela não deveria se submeter ao desgaste emocional de se perseguir pelas pequenas coisas que estavam faltando para atingir a sonhada perfeição - ou chegar o mais perto dela que os seus pobres genes lhe permitissem. Estava atormentada com o seu peso já faziam meses, sofrendo e se punindo por não conseguir atingir o valor ideal na balança continuamente e sofrer retrocessos vez após vez. Chorara numa sessão de depilação com cera quente porque não conseguia entender por que tinha que passar por aquele ritual de auto-mutilação, e agora teria que fazer depilação definitiva porque desenvolvera alergia à gilete, mas, com que dinheiro? Se desesperara porque não sabia como conseguiria dinheiro também para fazer betaterapia no intuito de tornar a cicatriz pós-operatória menos visível. Somando essas despesas, como conseguiria comprar as imprescindíveis - imprescindíveis! - roupas novas para o verão? Suas unhas nunca ficavam do mesmo tamanho para que pudesse pintá-las, e ademais aquelas estrias teriam que ter um jeito um dia. Precisava de dentes mais brancos, de uma pele sem cravos e poros visíveis...
 Nem toda a sua cultura parecia diminuir a insanidade daquilo. Alternava pensamentos desse tipo com leituras de George Orwell e Hermann Hesse. Já havia lido Marx, Naomi Wolf, Erika Jong, Scott Westerfeld, Alexandra Kollontai, nada adiantava. Não era futilidade. Era doença...
 Bobagens, bobagens, bobagens. Tinha mais é que aprender a valorizar o que já tinha, procurar as suas qualidades e ser grata por elas. Havia se proposto a fazer isso recentemente, mas simplesmente não conseguia. Sempre havia mais um defeito. Esse negócio de dismorfia corporal era grave mesmo, e não só para quem tinha anorexia e bulimia. A forma migratória da doença era igualmente atormentadora.
 Parecer-se com a Gisele Bündchen parecia, no entanto, menos desafiador do que tomar a decisão de gastar o seu dinheiro com um psicólogo e não com novas intervenções estéticas. Talvez todos os seus sonhos, menos o de ser desejada e a partir de então amada por um homem, estivessem agora inviabilizados pela loucura de perseguir cada célula do seu corpo. De censurá-la, de tentar mudá-la. Isso a consumia inteira. Toda a energia psíquica, todo o orçamento, todo o tempo que lhe sobrava, tudo ia para isso. Tinha que tomar uma decisão, ou afundaria sua vida nessa insanidade. Ou estaria saudável, como todo o resto da sociedade, e apenas se tornara tão vaidosa quanto toda mulher deveria ser? Ou seguir uma vida padrão, investí-la em casar e ter filhos, e secundarizar todo o resto, é que era normal? 
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Meninas, tentei ficar longe, mas deu nisso. =P Preciso de força para sair dessa, acho que estou ficando louca. Ou não? Talvez eu já saiba a resposta e não queira admitir. Ou talvez loucura mesmo, seja tentar ser normal num mundo de loucos. Ou talvez, os dois.
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Quero ser alegre, quero ser popular, quero ir à várias festas, ficar com muitos caras, aprender a dançar. Ter muitos amigos, ser considerada uma mulher e não uma menininha, sorrir muito, ter vários momentos felizes, vários orgasmos, encontrar um cara legal, casar. Simplesmente não pode ser assim tão difícil, simplesmente não pode ser que eu não mereça isso, simplesmente não pode ser que eu não consiga. A vida não pode ser só uma sucessão de trabalho, transporte público lotado, aula, cama - por tempo insuficiente, e sozinha - e mais trabalho. Não pode ser só privações, passar vontade de comprar as coisas, de ficar com os caras atraentes, de ter alguém com quem conversar, compartilhar. A vida, a vida bem vivida, com conforto e alegria e amizades e namoros e sexo não pode ser só para os outros. Não, eu também quero fazer parte disso. E eu vou.

2 comentários:

Tati Alves disse...

não fique assim flor,ao ler seu post fiquei pensando o quanto ligamos pro que os outros pensam da gente fique firme ai, volte com força total,a gente enlouquesse longe do blog,beijo

Ana Rafaela disse...

Eu ja ate considero normal, a mulherada se achar aquilo ou isso....e vc ainda acha q eh çlouka, louca nada so eh uma mulher comum.....corri atras dos desejos é tudo, é ferramenta para a construção, vc chega la, so consegue qm naum desisti....bjux e se cuida....fiz um post acho q ira lhe cair bm nessa fase...bjim...Beah...^^